do artista ready-made ao artista-app

2025
A estratégia de circulação das mercadorias (materiais e imateriais) e de sensações produzidas no/pelo ecossistema de produção de valor (galerias, advisors, boards de museus, etc.) se dedica principalmente à (auto) reprodução do ambiente da arte contemporânea. Ele se baseia principalmente em valores e critérios autoimpostos, tais como autenticidade, procedência, raridade, origem, materiais…, sabemos.
A realização do trabalho (artístico) hoje, depende de um trabalho virtual, tanto no sentido de “não atual” quanto de imaterial – não somente “improdutivo”, como definiu Mário Pedrosa em”O bicho-da-seda na produção em massa”. O central aqui é insistir na ambiguidade— já ressaltada no argumento de Mário Pedrosa— e requalificá-la. Se trata de um investimento de tempo e recursos próprios para sua possível (e incerta) realização.
Alguns autores caracterizam tal virtualidade ressaltando a abstração espaço-temporal exigida para a realização (imersão, isolamento, etc.) o que se condensaria na noção de “tempo dos projetos” (Groys, 2013). Outras, como Silva Rivera Cusicanqui, embaralham e imbricam a ambiguidade no próprio modo de subjetivação contemporânea no neoliberalismo a estendendo para todas as esferas da produção da vida. Nele essa (auto)produção de condição (precária) configuraria o double bind, ou o pä chuyma vivenciado pelo artista. Pä chuyma, é uma palavra aimará mobilizada a fim de pensar a forma de habitar um mandato antagônico em que dois imperativos contrários convivem e que nenhum deles pode ser ignorado. Para que uma demanda se cumpra, a outra se anula. Tal ambivalência se atualiza quando pensada na condição específica do trabalho do artista. Talvez aqui o mandato antagônico pudesse se resumir na seguinte assertiva: se o “artista” for agente cultural, deixará de ser artista?
Nesse mesmo regime, além disso, essa condição passa a servir como modelo e se estender a diferentes setores da atividade produtiva e reprodutiva—igualmente condenadas à égide do consenso neoliberal—, passando o “modo artista de trabalho” a ser a epítome da precarização e da desregulação das operações (apenas) > Segue
UBERAMA
2023
Formando parte da ocupação cheio-vazio no MUnA em Uberlândia, organizada, e curada pela artista Claudia Müller a .txt (Carla Lombardo & Ж) realiza a oficina-intervenção UBERAMA, do artista ready made ao artista app.

Tomando como ponto de partida nossa prática de intervenções coletivas em espaços públicos, propomos um exercício coreopolítico elaborado coletivamente cuja fonte sejam os movimentos (e os metadados) de corridas, interrupções e fluxos mediados por aplicativos de transporte (uber, ramblr, waze, etc). A atividade de caráter (auto)reflexivo busca subsídios teóricos sobre a condição social do artista no semiocapitalismo a fim de elaborar com isso práticas performáticas que tratem dos nexos entre atividades aparentemente dispares: a do artista e do trabalhador de aplicativos.
No dia primeiro dia estivemos com estudantes, artistas e interessadxs no MUnA – Museu Universitário de Arte da UFU, compartilhando repertórios ligados a nossas práticas, táticas e materializações realizadas em eventos estéticos diversos criados nos 10 anos da .txt.

No dia seguinte, expusemos um diagrama de confluências entre o trabalho do campo expandido da cultura — e dxs artistxs em particular — e o dos entregadores de app. O diagrama, mapas dos trajetos precarixs de ambos (artistxs e entregadores) e uma sequência de movimentos de troca de pacotes entre participantes da oficina e público, selaram a intervenção.
Documentação da oficina intervenção PDF aqui