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COLHEDORXS

2018-2020

The natural, proper, fitting shape of the novel might be that of a sack, a bag. A book holds words… A novel is a medicine bundle, holding things in particular, powerful relation to one another and to us.

Ursula Le Guin*

Sonho: peças para vestir nas ruas assoladas

procurando ervas nas calçadas e canteiros da metrópole.


Quilombo Ausente – Minas Gerais / 2020

Planta “tiuzin”. Colheita e classificação/ Colecta-clasificación: Gordo do Ausente




Planta “hortelã da…”. Colheita e classificação/ Colecta-clasificación: Gordo do Ausente




Planta “vassoura de bruxa”. Colheita e classificação/ Colecta-clasificación: Gordo do Ausente




Planta “maria preta”. Colheita e classificação/ Colecta-clasificación: Gordo do Ausente


Milho Verde-MG. Teste das peças / Experimentación de las piezas
Foto: Fernando Akira


Planta “cruzadinha”. Colheita e classificação / Colecta-clasificación: Gordo do Ausente

Gordo classificando as ervas / Gordo clasificando las hierbas medicinales

Quilombo Saracura – Bixiga, São Paulo / 2020

Coreografia dos abacateiros no quadrilátero do Quilombo Saracura.
Grota do Bixiga, córrego Saracura. Colheita no mês de Março.



Colectorxs

Sueño: piezas para vestir en las calles desoladas, para

buscar hierbas medicinales en las aceras y canteros.


* Sobre Ursula Le Guin

Em seu ensaio The Carrier Bag Theory of Fiction, a escritora retoma o argumento de Elizabeth Fisher em seu livro Woman’s Creation: Sexual Evolution and the Shaping of Society de que, antes de se tornar caçadora (e por muito tempo depois da caça surgir), a humanidade foi predominantemente coletora: a alimentação de nossos ancestrais primevos era substancialmente composta por vegetais, frutas, sementes e raízes, coletados nos lugares por onde passavam. Por conta disso a primeira ferramenta (e dispositivo cultural) não foi uma arma, mas o recipiente, a sacola, a bolsa, a mochila, a rede, o sling, que permitia transportar alimentos e a prole de um lugar para o outro.

Partindo da hipótese de que a primeira ferramenta tenha sido a sacola ou mochila, Ursula nos traz uma série de implicações e possibilidades de recontar a história e de recontar histórias. Nessa nova história, o herói, o que luta, defende, briga, corta, mata (qualidades geralmente associadas ao masculino) perde importância para aquilo que abriga, cuida, guarda, gesta… a própria ação de contar histórias é assim vista como o ato de tirar ideias, palavras e nomes de uma sacola e ofertá-las a outras pessoas.the natural, proper, fitting shape of the novel might be that of a sack, a bag.

A book holds words. . . A novel is a medicine bundle, holding things in particular, powerful relation to one another and to us.

Sua teoria da “sacola” deu origem inclusive a uma interessante proposta de método de pesquisa. 

Ursula Le Guin seguia essa teoria em sua ficção. Seus personagens raramente expressam esse tipo de atitude heroica, e quando o fazem, geralmente fracassam. No lugar do heroísmo apresentam uma complexa ambiguidade. Importante dizer que não perdem a agressividade nem deixam de ser violentos, mas a expressão dessas características ganha outros contornos e já não é mais o principal recurso disponível para lidar com o conflito.

Ursula foi uma das primeiras escritoras a levar o debate de gênero para a ficção científica. Em “A mão esquerda da escuridão”, um de seus livros mais famosos, ela faz o exercício de imaginar um planeta onde nossas questões de gênero (as humanas) não se aplicam, pois as/os habitantes não têm sexo definido… assumem o papel de macho ou de fêmea (de forma aleatória) apenas quando estão no “kemmer”, a fase fértil de um  ciclo semelhante ao nosso ciclo menstrual, permanecendo totalmente assexuado(a)s e andrógino(a)s na maior parte do tempo. Seguindo a análise que o livro apresenta, de contornos antropológicos, dessa sociedade imaginária, vamos percebendo, pelo contraste com o radicalmente diferente, os absurdos culturais que têm suas raízes em nossos papéis de gênero.

Ursula K. Le Guin nos deixou em janeiro deste ano. Seu legado influenciou o pensamento de autoras como Donna Haraway (de quem era amiga pessoal e que menciona sua teoria da “sacola” em uma importante conferência). Apresentou complexas inovações linguísticas em sua ficção utópica trazendo a ideia de que uma mudança da linguagem é parte necessária de uma mudança social ampla e também nos advertindo, pelo estranhamento, de que nossas práticas sociais atuais são apenas uma possibilidade entre infinitas outras.

Ursula formou gerações de leitores que, através de seus livros, tiveram acesso a uma literatura de ficção científica e fantasia muito diferente do padrão desse nicho, predominantemente masculino.


Texto da página web da Biblioteca do Instituto de Psicologia da UFRGS (link).