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Danzas da terra: neoextrativismo e subsistência nos estuários de Suape

Capas temporais superpostas que definem pontos de tensão e cisalhamento no nordeste do Brasil.

1º: gondwana. este exato lugar representa o último ponto de ruptura da placa sul-americana da áfrica, dando origem ao oceano atlántico.

2º: as américas. 1498 vicente yañes pinzón (espanha) chegou ao cabo de santo agostinho antes que os portugueses.

3º: escravidão. sendo já terra de domínio português, se transforma em área de porto negreiro, de pessoas trazidas a força da áfrica.

4º: ordem e progresso. se instala o porto de suape e uma refinaria, uns dos maiores polos industriais do nordeste do brasil, intensificando a ruptura e a tensão. prepara-se o  terreno para o antropoceno e para os futuros restos fósseis (a humanidade).

Sobre as exo/endo-coreopolíticas

O conceito de coreopolíticas foi criado pelo escritor André Lepecki, para ele o termo “coreografia” pode ser usada simultaneamente como prática política e como enquadramento teórico que mapeia, de modo incisivo, performances de mobilidade e mobilização em cenários urbanos de contestação, “ou seja são múltiplas as formações do coreográfico. E elas se expandem bem além do campo restrito da dança.”

Decido utilizar o termo como categoria ético-estético-política, ou seja como as coreografias, determinam os movimentos, as danças em relação com o chão. No território: são elas os movimentos da colonização? São os movimentos para o sustento da vida?

Qual a relação do corpo com o território? Qual a coreografia que determina sua atuação no mundo?

Exo / prefixo

  1. ‘Fora, de fora, por fora, afora’: exobiente, exógeno.
  2. Entendo a força do capital, “a força da grana que ergue e destrói coisas belas”, como um movimento de fora, que vem por cima, por fora das comunidades onde vai se implantar.

Endo / prefixo

  1. É um elemento de gramática que denota situação interna e significa ¨dentro¨ , ¨interno¨ .
  2. Entendo os movimentos para o sustento que realizam as comunidades tradicionais como um movimento interno, de dentro da terra, de dentro do manguezal, e que tem relação direta com a comida e a segurança alimentar.

Sobre o território do Cabo de Santo Agostinho e da Baia de Suape

Desde a primeira colonização, este território é cobiçado por ser uma área de ancoradouro natural utilizado como porto para pequenas embarcações. É formado por uma saliência rochosa (extrusão vulcânica convexa que avança sobre o mar), o Cabo de Santo Agostinho; e outra área côncava, a baia de Suape, a qual é protegida por una linha de arenitos de praia [beachrocks] de oito quilômetros de extensão, por 150 metros de largura e 15 metros de profundidade. A região era habitada pelos caetés, que viviam numa dinâmica de interação entre as forças naturais e culturais no ambiente.

Do século XVI até meados do século XVII foi território de batalhas, logo da ocupação portuguesa houve a tentativa de colonização/ocupação holandesa, o qual desatou uma luta pelo controle do território que finalizou com a Insurreição Pernambucana.

Depois das batalhas, e tendo os portugueses controlado o território, a região do Cabo entrou num período de esquecimento/abandono, pois as atividades e interesses comerciais estavam centrados na expropriação de mão de obra (pessoas escravizadas) e de apropriação de terras (sesmarias), instalando-se a monocultura de Engenhos de açúcar (80 fazendas e 5 engenhos de cana no total), o que colocou a Pernambuco no topo mundial na produção de açúcar no Século XVII.

Os primeiros sesmeiros da Capitania de Pernambuco receberam do Donatário da Capitania Pernambuco, Duarte Coelho Pereira, suas datas de terras a partir de 1535.
As famílias beneficiadas eram quase todas ligadas à parentela do Donatário ou articuladas com capitais estrangeiros que aplicaram nos engenhos. Os engenhos geralmente tinham a casa grande, uma Igreja, uma casa de purgar e uma para as caldeiras feitas de taipa e demais edificações comuns em um engenho de cana de açúcar (a senzala). O canavial era plantado ao seu redor e o restante da terra consistia em matas, que não servia para plantação. En geral um engenho podia moer 4.000 a 5.000 arrobas de açúcar.

A região de Suape compreende os terrenos dos seguintes engenhos, no total 22: engenho Jurissaca, engenho Boa Vista, engenho Algodoas, engenho Tiriri, engenho Mercês, engenho Massangana, engenho Serraria, engenho Meio, engenho Trapiche, Engenho Conceição Velha Engenho Penderama Engenho Arendepe Engenho Tabatinga Engenho Jasmin Engenho Rosário Engenho Setúbal Engenho Utinga de Baixo Engenho Utinga de Cima Engenho Pirajá Engenho Cedro Engenho Ilha dos Martins.

Até a década de 1960 as famílias rurais, quilombolas e ribeirinhas da região, foram inserindo ao longo do tempo culturas como a da mandioca e da araruta, além do plantio de fruteiras (manguerias, mangabeiras, jaqueiras e cajueiros), que passaram a ser fonte de subsistência para muitos moradores locais.

Quando passam a ser implantadas políticas de desenvolvimento industrial no Nordeste, coincidindo com a ditadura cívico-militar Brasileira e sua ideologia nacional-desenvolvimentista, ocorre no ano de 1973 a expropriação ilegal das terras dos trabalhadores rurais e inicio da construção do Porto de Suape… “Assim, saíram de cena os senhores de engenho, entraram as grandes corporações. Eliminou-se a figura do escravo, mas permaneceu a exploração do trabalho da mão de obra barata e descartável.”*

Exo-coreopolíticas no Porto de Suape

Movimento 1

O devir meteorito do homem* ou a implementação do sistema colonial-capitalista a qualquer custo: ECOCIDIO =GENOCIDIO=EPISTEMICIDIO

Movimentação de capital externo para sua aterrisagem no território de Suape. Fluxos de capital público e privado são destinados a construção do Complexo Industrial e Portuário Suape (CIPS), no Sul de Pernambuco.

O Meteorito Concreteglomerate foi achado em fevereiro de 2021, na Praia de Suape. Este tecnofóssil, evidencia os efeitos no corpo da natureza/cultura da construção industrial-portuária. É formado por dejetos de cimento das construções das infraestruturas, misturado com os restos de conchas de mariscos, a comida do povo.

O Porto de Suape, o CIPS (Complexo Portuário Industrial de Suape), é uma empresa pública com gerenciamento privado, tem uma extensão de 13,5 mil hectares, que abarca o Cabo, a baia de Suape, as ilhas de Cocaia, Tautoca e Mercês, até o município de Ipojuca. Comprende  áreas de manguezal, mata atlântica e do sistema estuarino-lagunar de quatro rios (Massangana, Ipojuca, Tatuoca e Merepe ). O complexo conta atualmente com mais de 100 indústrias.

Sua constituição é questionada pois a área era/é de posse e uso de famílias locais-tradicionais (rurais, quilombolas e ribeirinhas). Esta região foi “vendida” para a empresa um dia depois que o INCRA (Instituo Nacional de Colonização e Reforma Agrária) passasse a propriedade das terras para a Cooperativa Tiriri.

Algumas famílias continuam morando nas terras, outros habitantes tradicionais foram desapropriados ilegalmente, sendo empurrados para as periferias das duas cidades (Suape e Gaibu). A empresa tem exercido danos no ambiente que afetaram e afetam a dinâmica da vida na região, além das violências e o racismo ambiental sofrido pelas mesmas pois “na balança da desigualdade, as famílias antes donas das terras e de pessoas escravizadas são as mesmas proprietárias e donas de grandes empresas”.

3 casos de violações de direitos:

  • A Refinaria Abreu e Lima, contaminação por causa da chaminé a céu aberto, e por vazamento de óleo nos manguezais da região
  • A remoção forçada de famílias em função do Estaleiro Atlântico Sul
  • O CIPS é acusado de violência, despejos forçados, contaminação da água e ameaças a habitantes e ativistas locais (do Fórum Suape e comunidades da região)

Movimento 2

O devir draga do homem ou a criação de canais e barragens, e a consequente modificação do ecossistema de estuário, para que circulem no local navios de 330 metros de comprimento.

Movimentações gigantescas de terra, explosivos, máquinas e capitais para modificar o território. De 2009 a 2017 foram gastos pelo menos R$248 milhões em serviços de dragagem nos canais de acesso ao porto.

Na atualidade a mais grave agressão ambiental são as dragagens realizadas constantemente para garantir a profundidade adequada para as manobras e atracagem dos navios. Ao escavar o solo, as dragas trazem à tona metais pesados e poluentes que já estavam inativos. Algumas dessas substâncias, como mercúrio, enxofre e nitrogênio, reagem com o oxigênio e são absorvidos pela cadeia alimentar, o que pode provocar doenças e mortes entre peixes, golfinhos e até seres humanos que se alimentarem dos peixes ou crustáceos contaminados. Outro problema é causado pelas partículas menores, que se espalham e soterram corais, moluscos e pequenos caranguejos. A lama da dragagem também cobre as raízes do mangue, reduzindo a capacidade de oxigenação e destruindo os ovos ou filhotes de animais que usam o manguezal como berçário.

Barragem: o fechamento da comunição do mangue com o mar entre a ilhas Cocaia e Tatuoca para construir a estrada que leva até o Estaleiro Atlântico Sul deixou a agua represada onde era o mangue vivo. Os pobladores do Quilombo Ilha de Mercês perderam seu sustento a base de peixes e moluscos.

Uma das consequências ambientais da destruição dos mangues foi o desvio do ciclo de reprodução dos tubarões (o tubarão-tigre e o tubarão cabeça-chata) que migraram para parir no estuário do rio Jaboatão, perto da cidade de Recife. Desde a década do 90 começaram a explodir os ataques de tubarões, foram aproximadamente 40 incidentes, causando a morte de 13 pessoas.

Outros fatores decisivos desta mudança foi o aumento do tráfego dos navios na região, pois quando o vento sopra forte de sul a sudeste, as correntes oceânicas do sul para o norte se intensificam, trazendo para perto das praias de Boa Viagem, Recife os tubarões que seguem os rastros de navios do porto.

Movimento 3

O devir praga do homem ou o crescimento acelerado e a colonização de uma espécie que sufoca e destrói as condições de vida de outrxs.

Rota dos navios: foi preciso abrir um canal para o ingresso dos navios, para tanto se destruiu um trecho da linha dos arenitos de praia (beachrocks): 300 metros de comprimento, por 150 metros de largura e 15 metros de profundidade.

A colonização se deu/dá pelos navios; na atualidade os navios que chegam desde o Pacífico Sul trazem no lastro uma espécie exógena, o coral-sol. Este tipo de coral cresce e se reproduz rapidamente formando colônias, as quais impedem a reprodução do coral cérebro, espécie endógena da baia de Suape.

Endo-coreopolíticas na Baia de Suape

As conchas são os ossos do mar, disperso esqueleto.

J. Guimarães Rosa

O devir Mangue do povo

Marisqueiras de Suape

Endocoreopolíticas, movimentos e percursos dentro da baia que seguem os ritmos das marés, na procura e cata de mariscos no Pontal de Suape até à venda no povoado de Suape para donos de pequenos restaurantes da região. Em geral é uma atividade realizada por mulheres, esta profissão vai passando de geração para geração. É um trabalho pesado em que a quantidade de horas depende da maré, as marisqueiras geralmente saem em grupos de quatro ou cinco por canoa ou lanchas, percorrem aproximadamente 2 km até a ilha da Cocaia. Só voltam quando os cestos e baldes estão cheios. A partir daí vão tratar (limpar), cozinhar, embalar, pesar e vender o produto.

O devir Compost do povo

Caldinho de marisco

Sr. Maébrio, apelidado Rã, percorre em moto aproximadamente 1 km para comprar o marisco. Compra diretamente da marisqueira, Dona Liu.

Quem come e como, e quem é comido e por quem? (a continuar)


*So the meteor 65 million years ago reset the Earth’s biology. Currently, we are the meteor. There will be winners and losers. There’ll be more loses than winners but the winners will be the ones who will go on to provide future generations.

Referências Bibliográficas

Suape pelo avesso / Marco Zero (link)

Atlantico Sul Shipyard, Pernambuco, Brazil / Environmental Justice Atlas (link)

Significados e conflitos expressos na paisagem cultural do Cabo de Santo Agostinho/ PE – Helen Maria Palmeira Medeiros, Dissertação / UFPE, Recife 2013.

Aspectos geoambientais entre as praias do Paiva e Gaibu, Município do Cabo de Santo Agostinho (Litoral Sul de Pernambuco) – José Diniz Madruga Filho, Tese de Doutorado / UFPE, Recife 2004.

Patrimônio geológico e estratégias de Geoconservação: popularização das Geociências e desenvolvimento territorial sustentável para o litoral Sul de Pernambuco. – Thaís de Oliveira Guimarães, Tese de Doutorado / UFPE, Recife 2016.

Coreopolítica e Coreopolícia – André Lepecki / Ilha, Janeiro-Julho 2011